Além do Jogo

O blog do Marcelo Damato

O terror e o rali

Posted by Marcelo Damato em sexta-feira, 4 janeiro 2008

Ameaças terroristas na Mauritânia forçaram o cancelamento do Rali Dacar.  Sei que não é politicamente correto falar assim, mas não fiquei chateado. Acho o esse rali um absurdo. É um monte de carros e caminhões correndo em locais em que pessoas passam, muitas sem serem avisadas. Em nome da competição, mantém-se o percurso em segredo e se arriscam as vidas das pessoas.

Todos os anos morrem alguns habitantes (menos nos últimos, é verdade), e eles nem sequer são nomeados pelos organizadores. Os balanços oficiais são mais ou menos assim. “Na edição deste ano morreram o piloto Fulano, o motocilista Beltrano e mais sete pessoas locais”. Sem nomes, como se fossem bichos.

Anos atrás, vi um documentário impressionante. Os habitantes são avisados com muito pouca antecência de que o rali passará por sua cidade. Assim, montam esquemas precários de fornecimento de água e pequenos serviços. Para o ano seguinte, se preparam melhor. E tomam na cabeça, porque o rali passa por outros lugares.

Como escreveu um amigo meu há uns 12 anos: alguém imagina o que aconteceria se um grupo de milionários africanos decidisse organizar uma competição pela estradas vicinais, ruas e campos da França e atropelasse uma criança que fosse?

Para muitos africanos, o cancelamento deve ter sido uma bênção. Para eles o terror é o Dacar.

Anúncios

9 Respostas to “O terror e o rali”

  1. Joao Bittar said

    Boa Marcelo!!!!
    Tristes devem ficar os patrIocinadores com a grana jogada fora.
    Azar deles.
    Tava nauseado de ouvir nossos ralizeiros chorando as pitangas como se a democracia ou o direito de ir e vir tivesse sido grandemente abalado. Nada como pensar nos dois (ou todos ) os lados envolvidos pra se ter uma informacao mais equilibrada e relevante.

    Outra coisa, curiosa, João, foi a reação dos competidores brasileiros. Os irmãos Jean e André Azevedo, que iria competir, apoiaram o cancelamento. O Klever Kolberg, que ficaria em casa de toda maneira, criticou. Disse que era uma concessão imperdoável ao terror. O que foi curioso foi a forma que o governo francês encontrou para forçar o cancelamento do rali. Autorizou as seguradoras a decretar a Mauritânia país em estado de guerra civil, onde os seguros não valem. Como a organização é de lá (dos donos do jornal “L’Équipe”), não teve o que fazer.

  2. Rubens Leme said

    Eu concordo com o que foi escrito. é um esporte de rico mimado que querem mostrar a superioridade européia e branca em cima dos africanos. tomara que essa praga seja extinta…

  3. Onofri said

    Afinal para que serve um rally? Para que serve um piloto de rally? E, mistério dos mistérios, para que serve um alpinista?

    Calma, aí, Onofi. Rali é um esporte muito legal. Há pistas na neve, na lama, na areia, em tudo quando é piso. Cada vez há mais gente que considera os pilotos de rali melhores do que os de F-1, especialmente desde que os carros passaram a fazer muitas coisas sozinhos. Já um alpinista não é um esportista, é um aventureiro, alguém que gosta de testar seus limites. É como o cara que deu a primeira volta ao mundo num avião sem escalas, ou quem conquistou o Polo Norte, obviamente com uma importância apenas para si e não para oi mundo.

  4. Flavio said

    Eu até concordo em parte com o Kléver Kolberg, mas já era hora mesmo. É uma cara de pau não avisar a ninguém, nem aos habitantes, que o rali vai passar. Duvido que qualquer um dos locais recebeu um centavo de indenização algum dia. A prova em si é interessante, mas a maneira da qual é organizada é imperdoável.

    É isso aí, André

  5. Pedro said

    Nossa, sempre achei isso! Até que enfim vejo bom senso num comentário sobre esse “esporte”…

    Caro Pedro, seja bem-vindo ao blog. Espero que esteja gostando. Escreva sempre.
    E, como está vendo pelos comentários aqui postados, a sua opinião é até bem popular. Felizmente as idéias evoluem.

  6. Maurício said

    É meu caro, pelas notícias de hoje, em 2009 o rali pode ser realizado na América do sul. Ou na Patagônia ou na Amazônia.

    Pode ser, Mauricio, afinal já realizamos coisa parecida, o Rally dos Sertões. Alguém já se esqueceu do Kléver Kolberg (sempre ele) destruindo a casa de um pobre morador com seu jipão. Por via das dúvidas, vou trancar meus filhos em casa, hehe

  7. Ivan said

    O rali Paris-Dacar (Capitais de França e do Senegal, na costa atlantica da África) começou ainda quando a percepção dos dirigentes europeus sobre quase todo o munod era colonialista e de autopresumida superioridade. Daí eles acharem “normal e natural” até os dias de hoje não se ter respeito algum pelas populações locais, nem pelas suas tradições, que por mais atrasadas que tenham podido parecer, eram e ainda são o modo de vida daquelas aldeias ou cidades, que a cada realização do evento ficam sendo INVADIDAS pelo Rali. O Rai Paris Dacar e seus sucessores (o itinerário já foi alterado algumas vezes) é um monumento ao colonialismo exercido pelos paises ricos e seu modo de ver o mundo.

    Caro Ivan, bem legal o que disse. Escreva mais vezes. Seja bem-vindo ao blog. Se estiver gostando, ajude a divulgá-lo.

  8. Carlos Gaspar said

    Concordo com o perigo que representa e creio firmemente que deveria haver organização melhor, com divulgação prévia do trajeto, segurança,etc.
    Daí, entretanto, a ver o domínio da elite branca, dos agentes de Pitt, das multinacionais, da burguesia decadente, da banca internacional, do imperialismo yankee, etc. etc. já é ir longe demais.
    Abraços.

    Caro Carlos. Seja bem-vindo ao blog. Escreva sempre
    Sobre o que escreveu, um problema grave no rali Dacar é a concepção, a dos desbravadores do mundo selvagem, a civilização enfrentando o mundo hostil.
    Essa era visão européia do mundo no século XIX e começo do século XX, a de que o olhar Ocidental era o único aceitável. E essa visão se espalha em toda a organização. mesmo ela tendo sido criada no fim do século XX.
    Os franceses jamais fariam desa forma se a competição fosse lá. Não é portanto uma questão de competência, mas de ideologia.
    Não tem nada a ver com imperialismo yankee, bancos internacionais, burguesia decadente (??) e agentes da Pitt, mas com a visão colonialista européia,q eu nos legou vários pepinos com sua forma de administrar colônias no Terceiro Mundo. Um exemplo é o Iraque, país criado artificialmente pelo Império Britânico, após o fim do Império Otomano. Os britânicos juntaram curdos, sunistas e xiitas no mesmo país, porque julgavam mais fácil administrar dessa maneira as jazidas de preóleo, independentemente da vontade desses cidadãos.

  9. Joao Bittar said

    Li comentarios de leitores espanhois e italianos sobre o cancelamento do rali e fiquei surpreso (fui preconceituoso ao contrario…) com a grande maioria, especialmente dos espanhois, espinafrando o Carlos Sainz ( campeonissimo local da “modalidade” ) o colonialismo e os atropelamentos, alem de ridicularizar a “ajuda humanitaria” que os organizadores alegam deixar como legado de sua passagem.
    Acho que o tal rali e esse espirito de safari, tava entalado na garganta de muita gente e a opiniao contra parece ser majoritaria. A humanidade evolui, pelo menos na web.

    É isso aí, João. Agora só nos resta esperar onde será o “safári” de 2009.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: